Sartre no Curuzu

publicado: 17/12/2018 17h34,
última modificação: 21/01/2019 11h15

Um dos maiores escritores e filósofos do século 20 embarca numa viagem de ônibus em Salvador.

Especial para o Correio Braziliense
Nas celebrações do centésimo aniversário de Jean-Paul Sartre, o governo francês promove exposições, reedições, seminários e estudos sobre o ‘filósofo engajado’ e os intelectuais franceses (pelo menos alguns, os que andam freqüentando a mídia parisiense atualmente) discutem a necessidade ou não das postulações sartrianas na argamassa do pensamento pós-moderno. A sua última biógrafa, Annie Cohen-Solal, crê, como está no título de um de seus livros, que Sartre é um pensador para o século 21, em resposta direta a Michel Foucault, que considerava o ‘pai do existencialismo’ um pensador do século 19. No geral, os filósofos franceses em atividade (eles se reproduzem como abelhas) metem o malho naquele que foi considerado o maior filósofo do século 20 e que disse, como todo mundo sabe, que ‘o inferno são os outros’.

O século 20 é exatamente o enfoque das atenções da intelligentzia e da imprensa brasileiras ao centenário de Sartre: o foco é a lembrança da flamante visita que ele e Simone de Beauvoir fizeram ao Brasil em 1960, vindos de Cuba. O casal era a encarnação do século 20, ela redefinindo e impulsionando o papel feminino nas relações humanas e ele pregando uma reviravolta filosófica: a existência é anterior à essência, o absurdo da vida deve levar a uma justificativa para a existência humana. Pregava uma construção de sentido para a existência de cada um, viver autêntica e livremente um projeto pessoal de liberdade, rebelando-se contra as convenções sociais, ‘o homem está condenado a ser livre’. O primeiro filósofo não-acadêmico, militante, orador de comícios, em permanente contato com a realidade do dia-a-dia. Um filósofo popular.

A popularização do Existencialismo no Brasil vinha desde o final da década de 1940, com o enorme sucesso da marcha de carnaval Chiquita Bacana, de Alberto Ribeiro e Braguinha, cantada por Emilinha Borba e recantada por todo mundo nos anos 1950: ‘Não usa vestido / Não usa calção / Inverno pra ela / É pleno verão / Existencialista / Com toda razão / Só faz o que manda / O seu coração’. Em 1960 eu e minha turma vivíamos em Salvador da Bahia, tínhamos 20 anos de idade e a cidade estava culturalmente agitada, excepcionalmente agitada, gestando movimentos futuros como o Cinema Novo e o Tropicalismo. Modelávamos nosso Existencialismo a partir do cinema francês e dos romances de Sartre, estavam na moda A náusea e O muro. Durante os anos 1950, e ainda nesse alvorecer dos 1960, o viver existencialista tinha seu templo no Anjo Azul, uma cave no melhor estilo parisiense, escura, enfumaçada, onde se bebia absinto e xixi-de-anjo e tudo era permitido. Os sobreviventes dessa geração baiana somos todos indelevelmente marcados pelas madrugadas bêbadas e loucas do Anjo Azul, com a voz quente de Juliette Greco ao fundo e a sensação adrenalínica de que estávamos definindo um jeito de viver completamente diferente daquele para o qual nossos pais tinham nos educado.

Nosso viver existencialista ia um pouco além da nudez, ou do desnudar-se, da Chiquita Bacana, embora o incluísse (física e espiritualmente, vale lembrar o strip-tease interior da Hora da Verdade, sessões de perguntas e respostas avassaladoras onde não se podia mentir e ninguém tinha vontade de mentir). A obra de Sartre circulava com certa desenvoltura, lembro-me de concorridas leituras públicas de suas peças de teatro As moscas e Entre quatro paredes (Huis Clos) e alguns mais avançados haviam lido O Ser e o Nada. Entendíamos que, também ineditamente, uma filosofia era para ser vivida no cotidiano, vivenciada na prática, e não apenas pensada. É nesse cenário que, em um início de tarde, Sartre e Simone aparecem na Escola de Teatro da Universidade da Bahia, levados por Jorge Amado e Zélia Gattai. Uma surpresa de tirar o fôlego, não sabíamos que a grande estrela do pensamento do século 20 estava na cidade.

Durante quatro horas, no teatro-auditório-sala de aula da Escola, ouvimos e dialogamos com ele, com discretas intervenções de Simone e a ajuda de um tradutor. Éramos uns trinta estudantes e jovens que freqüentavam a Escola, como Glauber Rocha, já intensamente brilhante e inquieto como seria para o resto da vida. O tema foi a Revolução Cubana, a necessidade dos movimentos de libertação nacionais e a incidência desse cenário no existencialismo sartriano. O filósofo discorreu sobre o marxismo, seu ponto de incidência com o ‘humanismo existencialista’ (a transformação da sociedade) e sua divergência (determinismo histórico). Ficamos incendiados. Não recordo com nitidez da conversa, mas desse incêndio filosófico-ideológico-político, sim.

E também do que aconteceu depois, já se aproximando o fim da tarde, quando alguns de nós acompanhamos os visitantes até o portão da Escola. Sartre se recusou a acompanhar Simone, Zélia Gattai e Jorge Amado, declarando seu desejo de andar de ônibus em Salvador. Prontamente os cinco estudantes que ali estávamos nos apresentamos como guias e minutos depois estávamos pajeando o mestre no interior de um ônibus, em direção ao centro da cidade. Um de nós, o poeta Carlos Falk, falava francês razoavelmente, Sartre arriscava frases em espanhol e a comunicação se fez fácil. Saltamos na Ajuda, pegamos outro ônibus e cruzamos os bairros populares do Barbalho, da Soledade, da Liberdade, o Pero Vaz, descemos no Curuzu. Ele quis descer no Curuzu, impressionado pela negritude e pelo fervilhar humano naquele fim de tarde. Andamos pelo bairro sob olhares curiosos, ele conversou com algumas pessoas com a ajuda de Falk, comentou a sensualidade das moças e voltamos ao centro da cidade.

O ônibus para o bairro do Rio Vermelho, onde deveríamos devolver o visitante, estava lotado, viajamos de pé e apertados e era evidente o prazer de Sartre em participar daquela proximidade física com estranhos, aquele ‘rituel de corps’ como ele disse. Nos despedimos na porta da casa de Jorge Amado, ele agradeceu exageradamente nossa ajuda em seu mergulho na intimidade de Salvador e nos afastamos gritando de alegria e dando pulos, daqueles em que tocamos os calcanhares no ar.

Horas depois, no Anjo Azul, celebrávamos a façanha quando um atordoado Glauber Rocha perguntou porque não fora nela incluído. Contamos como aconteceu, fomos levar o homem à porta, ele queria andar de ônibus – onde você estava? Eu fui ao banheiro, respondeu Glauber, e caímos na gargalhada. Glauber ficou muito chateado, aceitou a contragosto a armadilha que o destino lhe havia preparado e, durante muito tempo, me interrogou minuciosamente sobre o que conversamos com Sartre durante o passeio de ônibus, achando que não tinham sido apenas comentários sobre a cidade e sobre as mulheres, como eu dizia. Mas foi.

*Orlando Senna é cineasta, jornalista e secretário do Audiovisual do MinC