Cinema, choque de capitalismo e urubus, por Orlando Senna

publicado: 17/12/2018 17h35,
última modificação: 21/01/2019 11h14

Artigo publicado no Jornal O Globo
Em Cannes, no mês passado, dois filmes brasileiros atraíram a atenção da imprensa européia e do público internacional. Foram intensamente aplaudidos, negociados para exibição e reverenciados pela crítica. Os jornalistas viram nesses filmes um resgate do jeito de se expressar do nosso cinema, da maneira especial e cativante dos cineastas brasileiros abordarem sua visão de mundo. Os filmes são Cinema, aspirinas e urubus, de Pernambuco, e Cidade Baixa, da Bahia. Enquanto o sertão e uma desconhecida Salvador brilhavam na Croisette, um documentário de baixíssimo orçamento, Soy Cuba O mamute siberiano, quebrava recordes de venda para o exterior. Esses filmes, pequenos, baratos, lindos, foram produzidos graças à descentralização das ações e à democratização dos recursos praticados pelo Ministério da Cultura, um dos aspectos da política audiovisual do governo Lula.

Enquanto isso, no Brasil, vozes dissonantes dessa política (minoritárias, mas audíveis) afirmavam publicamente que, ao democratizar os recursos, o Ministério da Cultura põe em risco o cinema industrial. Em outras palavras, cinema industrial e economia democrática seriam incompatíveis. A regionalização deve ser temática e não na produção, disseram. Negam assim, por princípio, o direito de regiões fora do eixo sudeste de desenvolver uma indústria altamente promissora.

Por cinema industrial brasileiro entende-se, atualmente, filmes de grande orçamento organizados por produtores brasileiros e turbinados pela associação com a televisão e com distribuidoras americanas. A televisão entra com a publicidade e o governo com os recursos financeiros. O objetivo desses filmes, naturalmente, é o consumo massivo. Às vezes dá certo, a exemplo dos grandes sucessos de 2003. Quando isto acontece a economia cinematográfica brasileira se reforça, ganha auto-estima e celebra. Às vezes não dá certo, devido ao imponderável do gosto do público. Nada demais. O negócio do cinema é assim mesmo, eivado de imponderáveis, os mesmos que podem transformar um filmezinho independente e barato em um enorme sucesso de bilheteria, e uma mega-produção em tremendo fracasso.

Mas nem tudo é imponderável no complexo mundo do cinema. Sabe-se, com certeza, que uma economia nacional de cinema não se sustenta em grandes produções, em blockbusters ou seja, no que as mencionadas vozes dissonantes denominam cinema industrial. As economias cinematográficas nacionais (e as internacionais também) baseiam-se no filme médio, nas produções bem mais baratas que os blockbusters, consumidas por um público menor e mais constante. As grandes produções e os filmes ditos pequenos são componentes importantes dessas economias bem-sucedidas. Os primeiros, pelo reforço financeiro sazonal à indústria, os segundos, pela oxigenação artística, essencial para que um cinema nacional se distinga e se desenvolva.

Para a consolidação de uma indústria cinematográfica brasileira é necessário, pois, que sejam aplicadas políticas públicas abrangentes, fomentando o seu dínamo maior e central, o filme médio, e suas pontas de equilíbrio, o filme grande e o filme pequeno. Também ampliar o parque exibidor e atualizar a infra-estrutura técnica, investir igualmente na produção e na distribuição, criar mecanismos de exportação. Também formar quadros e disseminar a cultura cinematográfica. Também abandonar fórmulas superadas (como a centralização da produção) pela nova composição industrial, empresarial e artística da atividade. Também inserir radicalmente o cinema no universo audiovisual e compor uma legislação condizente com o desenho progressivamente mutante desse universo, com as convergências tecnológica e negocial. Ou seja, fazer exatamente o que o Ministério da Cultura está fazendo com suas ações dirigidas, concomitantemente, à natureza mercadológico-industrial e à natureza cultural-artística do audiovisual, aspectos complementares e retroalimentadores.

Faz-se urgente, como insiste o ministro Gilberto Gil, um choque de capitalismo, cujo impulso está sendo dado pelas ações do governo, ações essenciais, estruturais, mas que não são bastante para a plena materialização desse objetivo. A contraparte empresarial é o remate que o tornará possível. Não se desenvolve uma indústria com meros intermediários entre os cofres públicos e as equipes de filmagem, temos de contar com produtores de cinema na verdadeira acepção empresarial, onde a ousadia e o risco são definitórios. E, espero, também a crença na democracia.

*Orlando Senna é cineasta, jornalista e secretário do Audiovisual do MinC