Raízes do Brasil, Verdade Tropical, Galáxias

publicado: 17/12/2018 17h39,
última modificação: 21/01/2019 11h08

As três obras que inspiram a presença do Brasil na França O Ano do Brasil na França está sendo organizado, segundo o secretário de Articulação do Ministério da Cultura, Márcio Meira, em três etapas distintas que se entrelaçam e fazem também homenagens a três livros iluminados da tão vasta biblioteca brasileira: Raízes do Brasil, do historiador Sérgio Buarque de Holanda; Verdade Tropical, de Caetano Veloso; e Galáxias, do poeta concretista Haroldo de Campos.
Para facilitar a compreensão dessa citação e sua relação com o que está sendo apresentado em Paris e em outras cidades francesas, publicamos aqui alguns trechos e aspectos desses livros que certamente servirão para futuras leituras e novas interpretações. Afinal, são livros-viagens à história e à cultura brasileira.

Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda

Publicado em 1936, é considerado juntamente com Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, e Formação do Brasil Contemporâneo”, de Caio Prado Júnior, um livro-chave para a compreensão moderna do processo de colonização e formação da nação e da sociedade brasileira.

Segundo prefácio do crítico e pensador Antônio Cândido para a edição de 1967, “uma das forças de Raízes do Brasil foi ter mostrado como o estudo do passado, longe de ser uma operação saudosista, modo de legitimar as estruturas vigentes, ou simples verificação, pode ser uma arma para abrir caminho aos grandes movimentos democráticos integrais, isto é, os que contam com a iniciativa do povo trabalhador e não o confinam ao papel de massa de manobra, como é uso”.

Nas primeiras páginas do capítulo inicial do livro – Fronteiras da Europa -, Sérgio Buarque de Holanda aponta contradições entre o “mundo novo” e a “velha civilização”:

“A tentativa de implantação da cultura européia em extenso território dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em conseqüências. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. Podemos construir obras excelentes, enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo de civilização que representamos: o certo é que todo o fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e outra paisagem. Assim, antes de perguntar até que ponto poderá alcançar bom êxito a tentativa, caberia averiguar até onde temos podido representar aquelas formas de convívio, instituições e idéias de que somos herdeiros”.

Em seguida, o historiador ressalta uma característica bem peculiar à gente da península Ibérica – Espanha e Portugal -, “característica que ela está longe de partilhar, pelo menos na mesma intensidade, com qualquer de seus vizinhos do continente”:

“Para eles, o índice do valor de um homem infere-se, antes de tudo, da extensão em que não precise depender dos demais, em que não necessite de ninguém, em que se baste. Cada qual é filho de si mesmo, de seu esforço próprio, de suas virtudes…”

Neste sentido, prossegue Buarque de Holanda apontando aspectos das relações sociais do tempo da colonização portuguesa. “Em terra onde todos são barões não é possível acordo coletivo durável, a não ser por uma força exterior respeitável e temida. (…) À frouxidão da estrutura social, à falta de hierarquia organizada devem-se alguns dos episódios mais singulares da história das nações hispânicas, incluindo-se nelas Portugal e o Brasil. (…) Os decretos dos governos nasceram em primeiro lugar da necessidade de se conterem e de se refrearem as paixões particulares momentâneas, só raras vezes da pretensão de se associarem permanentemente as forças vivas.” E conclui: “A falta de coesão em nossa vida social não representa, assim, um fenômeno moderno.”

No capítulo “Trabalho & Aventura”, o historiador qualifica os portugueses no processo de colonização do Novo Mundo. “Pioneiros da conquista do trópico para a civilização, tiveram os portugueses, nessa proeza, sua maior missão histórica”. (…) “Essa exploração dos trópicos não se processou, em verdade, por um empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica: fez-se antes com desleixo e certo abandono. Dir-se-ia mesmo que se fez apesar de seus autores”.

Sérgio Buarque de Holanda aponta outros fatores que tiveram papel de excelência na construção da raça brasilis e da nação brasileira. “Num conjunto de fatores tão diversos, como as raças que aqui se chocaram, os costumes e padrões de existência que nos trouxeram, as condições mesológicas e climatéricas que exigiam longo processo de adaptação, foi o elemento orquestrador por natureza”.

Segundo ele, “os portugueses e seus descendentes imediatos foram inexcedíveis, procurando recriar aqui o meio de sua origem, fizeram-no com uma facilidade que ainda não encontrou, talvez, segundo exemplo na história. Onde lhes faltassem o pão de trigo, aprendiam a comer o da terra, e com tal requinte que a gente de tratamento só consumia farinha de mandioca fresca, feito no dia. Habituaram-se também a dormir em redes, à maneira dos índios. Aos índios tomaram ainda instrumentos de caça e pesca, embarcações de casca ou tronco escavado, que singravam os rios e águas do litoral, o modo de cultivar a terra ateando primeiramente fogo aos matos. A casa peninsular, severa e sombria, voltada para dentro, ficou menos circunspecta sob o novo clima, perdeu um pouco de sua aspereza, ganhado a varanda externa: um acesso para o mundo de fora.”

Tudo isso, no entanto, não foi tão fácil assim. Para o historiador, “a abundância de terras férteis e ainda mal desbravadas fez com que a grande propriedade rural se tornasse, aqui, a verdadeira unidade de produção.”

Cumpria apenas resolver, ao que Buarque de Holanda chamou de “o problema do trabalho”. É justamente neste ponto que começam a se desenvolver as relações complexas -quase sempre cravada de atitudes cruéis e violentas, mas também duradoura – das três raças que permitiram ao Brasil desenvolver a tecnologia da mestiçagem, desse povo de pele morena e gostosa.

“Os antigos moradores da terra foram, eventualmente, prestimosos colaboradores na indústria extrativa, na caça, na pesca, em determinados ofícios mecânicos e na criação do gado. Dificilmente se acomodavam, porém, ao trabalho acurado e metódico que exige a exploração dos canaviais. Sua tendência espontânea era para atividades menos sedentárias e que pudessem exercer-se sem regularidade forçada e sem vigilância e fiscalização de estranhos. Versáteis ao extremo, eram-lhe inacessíveis certas noções de ordem, constância e exatidão, que no europeu formam como uma segunda natureza e parecem requisitos fundamentais da existência social e civil.”

“O resultado eram incompreensões recíprocas que, de parte dos indígenas, assumiam quase sempre a forma de uma resistência obstinada, ainda quando silenciosa e passiva, à imposições da raça dominante.”

As relações (conflituosas ou não) entre portugueses e negros africanos, segundo Buarque de Holanda, são anteriores ao processo de colonização do Brasil.

“Outra face bem típica de sua extraordinária plasticidade social é a ausência completa, ou praticamente completa, entre eles, de qualquer orgulho de raça. Ao menos o orgulho obstinado e inimigo de compromissos, que caracteriza os povos do Norte. Essa modalidade de seu caráter, que os aproxima das outaras nações de estirpe laina e, mais do que delas, dos mulçumanos da África, explica-se muito pelo fato de serem os portugueses, em parte, e já ao tempo do descobrimento do Brasil, um povo de mestiços. (…)

“Neste caso”, concluiu o historiador, “o Brasil não foi teatro de nenhjum grande novidade. A mistura de gente de cor tinha começado amplamente na própria metrópole. Já antes de 1500, graças ao trabalho de pretos trazidos das possessões ultramarinas, fora possível, no reino, estender a porção do solo cultivado, desbravar matos, dessangrar pântanos e transformar charnecas em lavouras, com o que se abriu passo à fundação de povoados novos.”

Em 1536, um certo Garcia de Resende faz um alerta em forma de verso chamando a atenção dos “homens prudentes para esta silenciosa e sub-reptícia invasão de negros que ameaçava transtornar os fundamentos biológicos da sociedade portuguesa:

“Vemos no reino meter

Tantos cativos crescer,

E irem-se os naturais

Que se assi for, serão mais

Eles que nós, a meu ver”

Mas voltemos aos apontamentos do historiador: “Uma das conseqüências da escravidão e da hipertrofia da lavoura latifundiária na estrutura de nossa economia colonial, foi a ausência, praticamente, de qualquer esforço sério de cooperação nas demais atividades produtoras, ao aposto do que sucedia em outros países, inclusive nos da América espanhola”.

Exemplo dessa visão tacanha e grosseira das relações humanas e econômicas no processo de colonização, fruto também da discriminação racial por parte da maioria dos colonizadores, foi quando, em 1720, o então governador do Maranhão, Bernando Perreira de Berredo, “mandou assentar praça de soldado a certo Manuel Gaspar, eleito almotacé, alegando que “bem longe de ter nobreza, havia sido criado de servir”. Conformou-se logo o senado com a decisão e, ainda por cima, anulou a eleição de outro indivíduo que “vendia sardinhas e berimbaus”.

Outros costumes de labor produtivo, como por exemplo o muxirão ou mutirão, “em que os roceiros se socorrem uns aos outros nas derrubadas de mato, nos plantios, nas colheitas, na construção de casas, na fiação do algodão, teriam sido tomados de preferência ao gentio da terra e fundam-se, ao que parece, na expectativa de auxílio recíproco, tanto quanto na excitação proporcionada pelas ceias, as danças, os descantes e os desafios que acompanham obrigatoriamente tais serviços”. Se os homens se ajudam uns aos outros, notou um observador setecentista, fazem-no “mais animados do espírito da caninha do que amor ao trabalho”.

E prossegue o nosso historiador, mostrando que nem tudo estava perdido e que, em meio a tantas contradições, começa a nascer um certo jeito brasileiro de ser: “O peculiar da vida brasileira parece ter sido, por essa época, uma acentuação singularmente enérgica do afetivo, do irracional, do passional, e uma estagnação ou antes uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras. Ou seja: exatamente o contrário do que parece convir a uma população em vias de organizar-se politicamente.”

Para Buarque de Holanda, “a influência dos negros, não apenas como negros, mas ainda, e sobretudo, como escravos”, começa a tomar conta da população que aceita sem oferecer obstáculos. “Uma suavidade dengosa e açucarada invade, desde cedo, todas as esferas da vida colonial. Nos domínios da arte e da literatura ela encontra meios de exprimir-se, principalmente a partir do Setecentos e do rococó.”

“O gosto pelo exótico, da sensualidade brejeira, do chichisbeismo, dos caprichos sentimentais, parece fornecer-lhe um providencial terreno de eleição, e permite que, atravessando o oceano, vá exibir-se em Lisboa, com os lundus e modinhas do mulato Caldas Barbosa:

Uma deles diz o seguinte:

Nós lá no Brasil

A nossa ternura

A açúcar nos sabe

Tem muita douçura

Oh! Se tem! Tem!

Tem um mel mui saboroso

É bem bom, é bem gostoso,

…………………………………..

Ah nhanhã, venha escutar

Amor puro e verdadeiro

Com preguiçosa doçura

Que é Amor de Brasileiro

E foi assim que a “moral da senzala”, segundo o livro “Raízes do Brasil”, “sinuosa até na violência, negadora de virtudes sociais, contemporizadora e narcotizante de qualquer energia realmente produtiva, veio a imperar na administração, na economia e nas crenças religiosas dos homens do tempo”.

Para completar este breve e singular passeio pelo livro de Sérgio Buarque de Holanda, vale lembrar que nesta mesma época, franceses e holandeses tentavam abocanhar um pedaço do Brasil. Escreve ele:

“O insucesso da experiência holandesa no Brasil é, em verdade, mais uma justificativa para a opinião hoje corrente entre alguns antropologistas, de que os europeus do Norte são incompatíveis com as regiões tropicais. Os idiomas nórdicos apresentam dificuldades fonéticas praticamente insuperáveis. Os pretos velhos não o aprendiam nunca. O português, ao contrário, era perfeitamente familiar a muitos deles.”

E continua: “Mais do que nenhum outro povo da Europa, o português cedia com docilidade ao prestígio comunicativo dos costumes, da linguagem e das seitas dos indígenas e dos negros. E em favor dos portugueses, a já aludida ausência, neles, de qualquer orgulho de raça. Americanizava-se ou africanizava-se, conforme fosse preciso. Tornava-se negros, segundo expressão consagrada da costa da África. (…) E assim a mestiçagem que representou, certamente, notável elemento de fixação ao meio tropical não constituiu, na América portuguesa, fenômeno esporádico, mas, ao contrário, processo normal. Foi, em parte, graças a esse processo que eles puderam, sem esforço sobre-humano, construir uma pátria novo londe da sua.”

Bem, vamos ficando por aqui na obra de Sérgio Buarque de Holanda, para podermos passar ao segundo livro (Verdade Tropical, de Caetano Veloso), que inspira atitudes, gestos, fatos culturais e artísticos durante o Ano Brasil na França..

Verdade Tropical, de Caetano Veloso

Na contra-capa do livro de Caetano Veloso há uma citação, do próprio autor, que deve nos ajudar a iniciar esta belíssima viagem pelas 510 páginas de uma rica narrativa barroca-coloquial:

“Do fundo escuro do coração solar do hemisfério sul, de dentro da mistura de raças que não assegura nem degradação nem utopia genética, das entranhas imundas (e, no entanto, saneadoras) da internacionalizante indústria do entretenimento, da ilha Brasil pairando eternamente a meio milímetro do chão real da América, do centro do nevoeiro da língua portuguesa, saem estas palavras que, embora se saibam de fato despretensiosas, são de testemunho e interrogação sobre o sentido das relações entre os grupos humanos, os indivíduos e as formas estatísticas, e também das transações comerciais e das forças políticas, em suma, sobre o gosto da vida neste final de século.”

Do livro, vamos focar um capítulo basilar para entendermos a obra de Caetano Veloso contextualizada na moderna cultura brasileira. Trata-se daquele onde ele fala da “Antropofagia”. E aqui não vale interromper seu rico e inesquecível relato:

“Quando a bossa nova chegou, senti minhas exigências satisfeitas – e intensificadas. Uma das coisas que mais me atraíram na bossa nova de João Gilberto foi justamente o desmembramento da bateria ( a rigor não há bateria em seus discos: há percussão tocada na caixa ou no seu aro, depois, vassourinha sobre catálogo telefônico). A ausência de sax também contribuiu muito. A volta da bateria como “instrumento”, que ocorreu já nos anos 60 no Beco das Garrafas e no Fino da Bossa, com suas viradas usando pratos e tudo, me soou de uma vulgaridade extraordinária. Eu não era um extraterrestre por tais gostos. Apenas radicalizava dentro de mim – como João Gilberto finalmente radicalizou para todos – uma tendência de definição de estilo brasileiro nuclear, predominante. Eu sei que o próprio João adora bateria e bons bateristas e que os brasileiros em geral não os desprezam, mas não é a forma idiossincrática com que essa visão se manifestou em mim que revela seu significado: apenas, a intuição de um estilo nacional novo e definido em música popular passou por esses extremos em minha fantasia”.

Imagina -se com que força eu não tive que pensar contra mim mesmo para chegar a ouvir Roberto e Beatles e Rolling Stones – e mesmo Elis – com amor. Zé Celso gostava de dizer havia um forte componente masoquista no tropicalismo. De fato havia como que volúpia pelo antes considerado desprezível. Mas eu – que como já contei, terminei passeando entre pilhas de latas de supermercado por prazer estético – não me entreguei a essa volúpia sem dedicar – lhe à interpretação todas as minhas horas de crescente insônia. E se, por lado, eu não tinha tido contato direto com a arte pop americana ( curiosamente Rogério nunca mencionara ou mostrara trabalhos de Warhol ou Linchtenstein), por outro, eu não contava com a formula antropofágica de Oswald. As aventuras da sensibilidade se deram num grande vazio. Pois, enquanto Gil parecia Ter uma identificação natural com o material vulgar da publicidade – identificação natural com o material vulgar da da publicidade – identificação de que eu não participava, bastando dizer que ele fazia jingles desde 63 em Salvador, e eu, até hoje, não apareci em um anúncio sequer, nem mesmo permiti que qualquer canção minha fosse usada para fins publicitários – , as idéias de Rogério e de Agrippino, à medida que iam passando a servir orientações para ações reais minhas, tiveram que se submeter a um crivo interno terrível, não sendo raras as vezes em que, na solidão, eu me permitia desconfiar da autenticidade de suas reações, freqüentemente prometendo a mim mesmo que nunca aceitaria neles – ou em mim – a exibição de heresias e heterodoxias apenas como escândalo, sem que isso estivesse organicamente vinculado à regeneração do ambiente de música popular no Brasil.

O encontro com as idéias de Oswald se deu quando todo esse processo já estava maduro e o essencial da produção já estava pronto. Seus poemas curtos e espantosamente abrangentes, a começar pelos ready-mades extraídos da carta de Caminha e de outros pioneiros portugueses na América, convidavam a repensar tudo o que eu sabia sobre a literatura brasileira, sobre poesia brasileira, sobre arte brasileira, sobre o Brasil em geral, sobre a arte, poesia e literatura em geral.

Oswald de Andrade, sendo um grande escritor construtivista, foi também um profeta da nova esquerda e da arte pop: ele não poderia deixar de interessar aos criadores que eram jovens nos anos 60. Esse ” antropófago indigesto”, que a cultura brasileira rejeitou por décadas, e que criou a utopia brasileira de superação do messianismo patriarcal por um matriarcado primal e moderno, tornou-se para nós o grande pai.

Glauber parece ter sido o único a não partilhar do culto oswaldiano: talvez tivesse medo de ser assimilado a uma figura com tantos pontos em comum como ele próprio. De resto, ele já tinha feito sua escolha entre os modernistas: Villa-Lobos, com seu nacionalismo retumbante e a conquista de renome internacional, com seu talento exuberante, com seu temperamento e seus caprichos, parecia-lhe uma identificação mais adequada . A Bachiana nº 5 ficara de tal modo vinculada ao travelling circular do beijo entre Corisco e Rosa em Deus e o Diabo na Terra do Sol, que era natural que Glauber defendesse Villa-Lobos como a si mesmo. Antonio Candido define o barroco como a atitude estética em que ” a palavra é considerada algo maior que a natureza, capaz de sobrepor-lhe as suas formas próprias”; no romantismo ela ” e considerada menor que a natureza, incapaz de exprimi-la, abordando-a por tentativas fragmentárias”; enquanto o classicismo a considera “equivalente à natureza, capaz de criar um mundo de formas ideais que exprimam objetivamente o mundo das formas naturais”. À luz dessa classificação, que me parece clara e bela, Glauber, cuja fama de barroco fingi endossar (ou melhor, endossei de fato por estar ali tomando o termo barroco em sua acepção menos rigorosa de acima, seria antes um romântico. De fato, ele não apenas sonhava em filmar a vida de Castro Alves: ele se identificava com a figura desse poeta romântico baiano que um dia entrou no teatro da ópera de Salvador a cavalo. Seu sonho de filmar O Guarani, romance “indianista” de José de Alencar (partindo da ópera verdadiana de Carlos Gomes, o outro nome da música brasileira tornado internacional) – assim como o fato de ele dizer preferir Alencar ao indiscutível Machado de Assis -, indica sua verdadeira linhagens. Seus filmes, irregulares e fora de controle, sugerem uma intuição da realidade demasiada genial para ser reordenada numa peça coerente. A genialidade dessa intuição é confirmada e complementada pelos gestos exteriores ao filme, pela visão messiânico, pelo sofrer na carne a aventura da afirmação de um cinema nacional, e, através dele, de uma afirmação da nação no mundo. Não se trata de um hipotética “poesia de exportação”, mas de uma encarnação da vontade de exportar. Há um gosto de destino em tudo isso. O que leva a eleger como patrono a figura de Villa Lobos, não a de Oswald de Andrade, com cuja agressividade antiprovinciana Glauber tinha (talvez demasiados, como já afirmei) pontos de identificação. A mim, se me fosse dado o talento necessário, eu ambicionaria superar essa tensão. O problema já foi equacionado por João Gilberto: depois dele, na minha profissão não se pode aceitar nada menos do que fazer a massa mundial comer biscoitos fino que se fabrica no Brasil.”

Galáxias
, de Haroldo de Campos

Ao ler Galáxias, em 1966, Guimarães Rosa escreveu para Haroldo de Campos: “Você não discrepa, e o texto é estimulante, catalisador ao mais alto grau. É um perpetuum mobile, em caleidoscópio. Viva. Todos os iauaretés urrum”.

E também o poeta mexicano (Prêmio Nobel) Octávio Paz: “Tus textos son verdaderas galaxias: fosforescencias semánticas entre lo blanco del papel e lo negro. Además, admirablemente traducidos. Me gustaría escoger como divisa el final del primer fragmento: el vocablo es mi fábula…”

Galáxias
é um desses livros muito falados, mas ainda poucos lidos. Na realidade, como disse Caetano Veloso, “eu quero a proesia”. Textos para serem degustados, remoídos, escorregados.

É de Benedito Nunes um dos mais brilhantes comentários sobre os textos em “proesia”, de Haroldo de Campos: “…Galáxias”, texto plural (mistura de matéria vivida a “matéria delida deslida trelida) de action writing (continuum verbal que o silêncio descontinua, a realizar a idéia do poema-vida que tanto seduziu Mário Faustino, companheiro de geração de Haroldo de Campos), pertence à categoria das produções “escriptíveis” (scriptibles) de que nos fala o Barthes de S/Z: a mesma dos textos de fruição, que são tecido e textura, “onde o sujeito desfaz-se como uma aranha que se dissolvesse a si própria nas secreções constitutivas de sua teia” (O Prazer do Texto). Aqui a escritura é um “dédalo-diário”; e o sujeito-escritor – “um escravo rôo a unha do tempo até o sabugo…” – é um ser histórico, situado no “eldorido feldorado latinoamargo.”

De todos os “proesias” de Haroldo, escolhemos o “circuladô de fulô”, que já mereceu música e foi eternizado em disco por Caetano Veloso:

“Circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá soando como um shamisen e feito apenas com um arame tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música não podia porque não podia popular aquela música se não canta não é popular se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria física e doendo doendo como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na palma espalma da mão coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro prego cego durando na palma polpa da mão ao sol enquanto vendem por magros cruzeiros aquelas cuias onde a boa forma é magreza fina da matéria mofina forma de fome o barro malcozido no choco do desgôsto até que os outros vomitem os seus pratos plásticos de bordados rebordos estilo império para a megera miséria pois isto é popular para os patronos do povo mas o povo cria mas o povo engenha mas o povo cavila o povo é o inventalínguas na malícia da mestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia azeitava o eixo do sol pois não tinha serventia metáfora pura ou quase o povo é o melhor artífice no seu martelo galopado no crivo do impossível no vivo do inviável no crisol do incrível do seu galope martelado e azeite e eixo do sol mas aquele fio aquele fio aquele gumefio azucrinado dentedoendo como um fio demente plangeando seu viúvo desacorde num ruivo brasa de uivo esfaima circuladô de fulô circuladô de fulô circuladô de fulôôô porque eu não posso guiá veja este livro material de consumo este aodeus aodemodarálivro que eu arrumo e desarrumo que eu uno e desuno vagagem de vagamundo na virada do mundo que deus que demo te guie então porque eu não posso não ouso não pouso não troço não toco não troco senão nos meus miúdos nos meus réis nos meus anéis nos meus dez nos meus menos nos meus nadas nas minhas penas nas antenas nas galenas nessas ninhas mais pequenas chamadas de ninharias como veremos verbenas açúcares açucenas ou circunstâncias somenas tudo isso eu sei não conta tudo isso desaponta não sei mas ouça como canta louve como conta prove como dança e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe me esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que me ensinou já não dá ensinamento bagagem de miramundo na miragem do segundo que pelo avesso fui dextro sendo avesso pelo sestro não guio porque não guio porque não posso guiá e não me peça memento mas more no meu momento desmande meu mandamento e não fie desafie e não confie desfie que pelo sim pelo não para mim prefiro o não no senão do sim ponha o não no im de mim ponha o não o não será tua demão …”

(Luis Turiba)