Paris à brasileira, por Luís Turiba

publicado: 17/12/2018 17h39,
última modificação: 21/01/2019 11h08

Os franceses estão encantados com a beleza e a força da cultura brasileira
Luís Turiba *

O Brasil está plantado na França
com suas mais profundas raízes

Urnas funerárias confeccionadas há séculos e bravos guerreiros indígenas mumificados por inimigos após ferrenhos combates; desenhos rupestres e toras de pau-brasil trabalhadas com urucum bem antes da chegada dos portugueses às nossas praias; pedras e peças de raro esplendor que testemunharam os primeiros passos da Humanidade em território americano.

E mais: penas, plumas, cerâmicas, peças de fibras vegetais, diademas, aventais, tapas-sexo e jóias em ornamentais arranjos multicoloridos que, com toda certeza, deixarão influências na sempre atenta, eterna e ousada moda francesa.

Dizer que Paris já é uma grande aldeia brasilis ou que o Rio Sena vai virar um Piscinão de Ramos no próximo verão – com os nossos conhecidos farofeiros, vendedores de bananas, água de côco e sanduíches naturais, baianas de acarajé, cocadeiros, soltadores de pipa -, é no mínimo um exagero, uma figura de linguagem na terra do surrealismo e das vanguardas.

Isso, diga-se de passagem, pelo menos por enquanto.

Mas espera-se que a França abrasileirise-se com a chegada do verão e tenha ‘une année culturelle ensoleillée’.

A Torre Eifel, ícone maior da civilização francesa, há de se iluminar e piscar em verde e amarelo. No ano passado, em homenagem a China, ela ficou vermelha.

Os sinais do Année du Brésil en France são evidentes e o primeiro e grande passo já foi dado no último dia 21 de março: a exposição Brésilindien – Les arts des Amérindiens du Brésil, organizada pela Réunion des Musées Nationaux e pela empresa brasileira Gabinete Cultura, com o devido apoio dos governos francês e brasileiro, e da empresa francesa Arevapara, no refinado Grand Palais.

Somente esta exposição já representa uma frondosa e refinada árvore da ancestralidade brasileira e da essência da cultura brasileira.

E quem esteve na inauguração, sentiu um certo frisson. Um luxo que transcende a riqueza econômica e social! Um orgulho das potencialidades brasileiras. Uma verdade que não nos dávamos conta. Ou como já disse Noel Rosa em um de seus clássicos sambas: ‘não tem tradução / é brasileiro, já passou de português’.

E por força da poesia, também podemos citar o verso da música feita pelo cantor pernambucano Lenine, um lindo hino brasileiro para o Ano: ‘a gente veio do fundo da floresta / a gente veio futuro conhecer nosso passado’.

Conheça o Hino do Brasil na França composto por Lenine.

E que belo passado, minhas amigas: vieram peças de inúmeras instituições brasileiras e estrangeiras para o que, talvez, venha a ser a mais completa e digna exposição sobre a arte indígena da nossa gente, abrangendo desde as linguagens ancestrais com toda sua complexidade até os registros pós-modernos da atual sociedade.


Peças e raridades que vieram de coleções particulares, de museus brasileiros como o Paraense Emílio Goeldi, de Belém (MCT); o do Índio (Funai e Ministério da Justiça); o de Arqueologia e Etnologia da USP; o Instituto Cultural Banco Santos.

E também museus da Europa, como o Antropológico da Universidade de Coimbra; o Nacional de Arqueologia de Lisboa; o Barbier-Müeller d´Art Precomlombí, de Barcelona; e o Nazionale Preistorico ed Etnografico Luigi Pigori, na Itália. Ao todo são quase 400 peças, incluindo as fotos e os vídeos.

Há destaques: as máscaras Jurupixuna, por exemplo, feitas com fibras de vegetal são de impacto visual inesquecível. O mesmo acontece com os crânios dois guerreiros Munduruku que foram enfeitados, mumificados e apresentados como troféus para a posteridade.

Há uma curiosidade espiritual (e bem brasileira, é claro) na montagem da exposição inaugural, que foi gestada ao longo dos dois últimos anos, sob a responsabilidade do etnólogo Luis Donisete Benzi, da USP; da antropóloga Regina Polo Müller, da Unicamp; e da arqueóloga Cristiana Barreto, do Centro de Estudos Brasileiro da Universidade de Oxford.

Uma semana antes da abertura (ocorrida no último dia 21 de março), dois índios da etnia Baniwa, do Alto Rio Negro, no Amazonas – o pai Bonifácio José e o filho Fernando José -, passaram alguns dias em Paris montando uma instalação de pau, cipós e magias amazônicas.

Escolheram um canto bem discreto das Galerias Nacionais do Grand Palais, na realidade um cruzamento, uma passagem entre os módulos de Arqueológica e Etnológica da exposição.

Montaram a armadilha como manda o figurino (da tribo) e voltaram para o Brasil. Não ficaram (na realidade, não puderam) para a concorrida noite de inauguração da grande exposição.

Aqui cabe um breve parêntese: na abertura estavam presentes o ex-ministro da Cultura francês, Jack Lang; atualmente apontado nas pesquisas eleitorais como o preferido do povo para as próximas eleições presidencais da França; o antropólogo Claude Lévi-Strauss, de 96 anos, ex-professor da USP, amante dos índios brasileiros e que é homenageado em uma das salas onde está sua coleção particular sobre a cultura indígena; e a sempre elegante e ligada ministra da Cultura da Espanha, Carmem Calvo; além, é claro, do ministro da Cultura da França, Rennaud Donnedieu; e de inúmeras autoridades brasileiras da área cultural como o presidente da Bienal de São Paulo, Manoel Pires da Costa.

Mas vamos voltar à instalação. Os índios se foram, mas deixaram uma magia no perfumado ar francês. Dizem que essa é a armadilha do encantamento, pois nela estão acomadados os cantos dos pássaros brasileiros, os sons dos animais caçados para as refeições, como tatu, jaboti, onça, etc; além de gotas de sangue dos índios abatidos e exterminados pela civilização colonizadora.

É a armadilha dos pequenos barulhos da floresta, o chocalhar das águas dos rios, dos ensinamentos dos pajés e dos ancestrais, do homem em contato direto com a sábia Mãe Natureza.

E pelo visto, os franceses caíram na armadilha dos índios do Rio Negro.

A imprensa está babando brasilidades. Nada menos que 27 diferentes publicações trouxeram, no último mês, matérias especiais e especialíssimas sobre o Brasil e as 300 atividades já contratadas para o Anné du Brésil.

Rádios e TVs cobriram intensamente para os horários nobres essas primeiras atividades. Até o telejornal de empesa de aviação Air France noticiou a presença cultural brasileira em todos os vôos entre Paris-Rio-Paris.

Os organizadores da exposição estimam que até o final de junho, quando será desmontada, cerca de um milhão e meio de franceses, europeus, japoneses, orientais e latinos-brasileiros tenham ido visitar a arte de nossos indígenas.

‘Pronto! Estamos felizes e contentes com a receptividade às nossas primeiras atividades aqui. A presença do mestre Lévi-Strauss na abertura da exposição foi algo extraordinário, marcante. É o nosso carimbo para a história. O primeiro passo já foi dado. Vamos seguir adiante com toda força, dedicação e energia brasileira’, disse o ministro da Cultura, Gilberto Gil, em entrevista coletiva à imprensa na embaixada brasileira.

Após a entrevista, ao lado do embaixador Sérgio Amaral, do comissário do lado brasileiro, André Midani; e do secretário de Articulação do MinC, Márcio Meira, Gilberto Gil descerrou a faixa de 300 metros saúda o evento.

Nem a chuva impediu o pequeno, mas simbólico gesto. Enquanto puxava o cordão para o aparecimento da faixa, o ministro lembrou com bom humor.

‘Parece que estou puxando rede de pescador numa praia da Bahia’.

A embaixada brasileira se localiza em rua central e de muito movimento, voltada para o generoso Rio Sena, entre as pontes de Alma e a riquíssima Invalides.

Das raízes as galáxias

O secretário de Articulação Institucional do Ministério da Cultura, Márcio Meira, tem dito e repetido que a Carta de Navegação do Ano do Brasil na França está dividida em três etapas, que interagem entre si: ‘Raízes do Brasil’, ‘Verdades Tropicais’ e ‘Galáxias’.

Na realidade, uma homenagem a três livros basilares cultura brasileira e também aos seus autores: o historiador Sérgio Buarque de Holanda, o cantor e compositor tropicalista, Caetano Veloso, e o poeta concreto, Haroldo de Campos. (ler artigo sobre os livros).

A viagem brasileira em Paris apenas começou. E como diz Haroldo de Campos, na primeira página de Galáxias: ‘começo e recomeço e remeço e arremesso e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa não é a viagem mas o começo da’.

Ou seja: das três raças que formam a mestiçagem brasileira, os índios já estão representados. Faltam os portugueses, responsáveis pela colonização e construção do país Brasil; e a cultura dos escravos negros vindos da África, cujas mãos, força e espírito foram fundamentais na construção do Brasil moderno que hoje se apresenta ao mundo como nação exemplar.

Não chegaram oficialmente, mas estão ali, rondando e sondando. A exposição sobre a história da Música Popular Brasileira, montada na Cité de la Musique, é exemplo vivo dessa presença.

O show da cantora Maria Rita lotou o auditório da Cité e a filha de Elis teve que voltar cinco vezes ao palco para bis (leia o artigo Essa é para tocar no radiô e futura programação).

Nasce algo novo

Liberté. Égalité. Fraternité, de um lado. Do outro, um país de todos: de todas as raças, todos os credos, todos os estilos, cores, oportunidades. Essa é uma mistura cuja fórmula que pode dar certo.

Quem presenciou a alegria que se irradiou do encontro e da conversa entre o ministro-músico Gilberto Gil, o cantor e compositor Jorge Benjor e o cantor e compositor franco-latino Henri Salvador, na residência do embaixador Sérgio Amaral, está convencido de que nasce algo novo nas relações humanas e culturais entre brasileiros e franceses. Se não nasce, pois tradicionalmente já existem, estão se consolidando em um novo patamar.

‘Jorge, esse é o homem’, disse Gil fazendo uma referência a história de Henri Salvador com a MPB. Benjor parecia um menino feliz abraçando Papai Noel. Dava risadas, pulava, sacudia os dedos fazendo o sinal positivo. ‘Salve simpatia’, saudou o astro frances.

‘Que nada, vocês é que estão mandando’, retrucou Henri com um sorriso de dá gosto, deixando os dois brasileiros com os olhos marejados.

Henri Salvador, aos 86 anos, é considerado um ‘patrimônio vivo’ da música francesa e indicado para ser uma espécie de padrinho francês da agenda musical do Ano Brasil na França.

‘É uma honra. Nem acredito: ser padrinho do país que faz a melhor música do mundo’, agradeceu ele para um público de quatro mil pessoas que compareceu ao show de lançamento do seu CD ‘Ma chère et tendre’ do Palais du Congrès, em Paris.

Aliás, a França está ‘ligada’. Espera muito dos brasileiros. O clima é favorável e sentido nas ruas. Um guarda da alfândega francesa, ao averiguar os pertences do cineasta André Luís de Oliveira, responsável por um documentário sobre a abertura do evento, perguntou de onde ele era.

‘Da Bahia’, respondeu André.

‘Ulá lá! Adora o som da Bahia e a música baiana’, saudou o guarda aduaneiro, que logo se esqueceu da sua função fiscalizadora para louvar o batuque do Oludum.

Há cartazes no Metrô. Prospetos são distribuídos na Cité de la Musique anunciou show da Velha Guarda da Portela, que mereceu capa de revista, Forró do Chico – ‘Bal spectaculaire brésilien.’

Recentemente, o professor e historiador francês Marc Ferro, diretor de Estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, levantou a bola da civilização brasileira. Em conversa com o jornalista brasileiro Napoleão Sabóia, ele propôs:

‘Não será absurdo se pensar numa inversão da História cinco séculos após a descoberta de Cabral, inversão pela qual o Brasil humorado, fagueiro e brincalhão colonizasse culturalmente a Europa de hoje, podre de rica, mas sem muito espontaneidade para os gestos capazes de fazê-la um lugar de festa, de alegria – e não apenas um centro de trabalho e do gosto pela poupança’.

E assim o Brasil vai pintando, de mansinho, seu verde e amarelo no bleu, blanc e rouge da França.

O entusiasmo francês é tão intenso, que há casos engraçados, pitorescos. Uma revista feminina francesa – Votre Beauté – dedicou em sua última edição dez páginas as curvas encantatórias da mulher brasileira.

‘Samba, forró, capoeira… apprenez à vibrer latinó pour vous façonner une silhouette de gatinha.’, dizia a chamada da reportagem.

A matéria traz um serviço completo para o ‘corpo ficar legal’. ‘L´année va vibrer aux rythmes du Brésil’. Dá dicas, preços e endereços em Paris, para que as francesas se prepararem para o que vem por aí: bailes populares, rodas de samba e capoeira, ginástica, muito ziriguidum, esquindó lê lê, s’il vous plait!

As últimas duas páginas são dedicadas ao que os editores chamaram de ‘Opération Bum-Bum’

Ao comentar esse tipo de abordagem sobre esteriótipos brasileiros, na coletiva de imprensa, o ministro Gilberto Gil foi bem sintético:

Não creio na necessidade de combater esses esteriótipos. São legítimos pois têm a força da evidência’.

Mas o Ano do Brasil quer mesmo é mostrar um amplo espectro da cultura brasileira, em sua diversidade e riqueza. Quanto às curvas, ah, é um mero detalhe. Trés énvident, Monseiur!

*Luís Turiba é poeta, jornalista e chefe da
Assessoria de Comunicação Social do MinC

Texto e fotos: Luís Turiba