Força de consciência cultural, por José Roberto Aguilar

publicado: 17/12/2018 17h41,
última modificação: 21/01/2019 11h07

‘Enquanto fizermos o alinhavamento das origens, daquilo que foi e daquilo que é e será, criaremos uma cultura viva e pulsante.’
José Roberto Aguilar*

No fim de ano de 2004, o ministro da Cultura Gilberto Gil participou de um show de Belchior em Sobral e se entusiasmou com uma nova força de consciência cultural, autóctone, autêntica, de raízes, nordestina, especificamente do Ceará. E concluiu que poderia fazer parte de seu projeto de descentralização da cultura, fora do eixo Rio-São Paulo. Não é uma demonização barata destas duas cidades, ou do sul como queiram, mas sim de uma vitalização local, única e diferenciada, partilhada por toda a federação. E tudo isto aconteceu em torno de um nome de um rapaz nordestino que criou uma iconografia brasileira, que hoje é lugar comum como o samba é lugar comum.

Este rapaz de 82 anos se chama Aldemir Martins. Neto de avó tapuia e de um modesto ferroviário, junto com outros dois gigantes, Mário Barata e Antonio Bandeira, funda a Sociedade Cearense de Artistas Plásticos, em 1942, com 20 anos de idade. Aos 23 anos parte para o Rio de Janeiro e no ano seguinte viaja para colonizar pictoricamente São Paulo, onde se enturma e coleciona prêmios por todo lado, principalmente da recém-fundada Bienal de São Paulo, culminando com o prêmio de melhor desenhista da Bienal de Veneza de 1956.

É um dos primeiros artistas a realizar uma iconografia brasileira (não naturalista) em profundidade, isto é, sua imagética entra no inconsciente brasileiro, passa a ser de pertencimento coletivo, todo seu glossário, cajús, pássaros, peixes, cangaceiros, flores, bananas, paisagens, aracnídeos, etc. Resulta como a imagem do Brasil se refletisse através de seus desenhos e pinturas, os quais fluem de graça como uma fruta ao alcance da mão, sem ideologias, apenas a imagem. Seu nível de tradução corresponde a de um Jorge Amado reinventando a Bahia, a de um Mário de Andrade reinventando o Brasil ou o de um Oswald de Andrade reinventando o modernismo. Reinvenção no sentido de descotidianizar o olhar.

    

Então sua icononografia se torna parte da imagética do inconsciente coletivo, onde existe o perigo do desaparecimento do autor. Se faz necessário o trabalho de traduzir o pintor Aldemir Martins, já que sua imagética engoliu o individuo. Esta tradução se dá na volta às origens, na volta o trajeto se faz visível, o traço se faz seguido. Isto é chamado de resgate da memória, resgate do mérito e da pessoa. Resgate das raízes. Do caldo primordial de onde tudo surgiu. Até do boteco aonde o jovem Aldemir bebia suas pingas. Tudo isto dentro de um cenário que se chama Ingazeiras, que se chama Fortaleza, Ceará, Brasil. O mesmo pode ser aplicado à Belchior, de Sobral, Fortaleza, Rio, São Paulo, Sobral. O mesmo pode ser aplicado a Antonio Dias, Campina Grande, Rio de Janeiro, Milão, Colonia, Campina Grande. Enquanto fizermos o alinhavamento das origens, daquilo que foi e daquilo que é e será, criaremos uma cultura viva e pulsante. Sem esquecer o passado, ou ele se torna paradigmático, isto é, só reflete aquela época e não tem tradução para a seguinte, o passado tem que ser reinventado para fermentar o presente, e se não tivermos consciência agora de nossas reivindicações e reinvenções, o futuro será redundante, demagógico e manipulador.

Todos os artistas aqui presentes em Fortaleza, 20 de janeiro de 2005, os paulistas reverenciando o paulistano Aldemir Martins, os cearenses reverenciando o cearense Aldemir Martins, os baianos reverenciando o nordestino Aldemir Martins, todos, firmaram um pacto para construir um Brasil descentralizado, federativo, republicano e não dependente das grandes metropólis, atuante numa cultura viva, democrática e de raízes.

Portanto, VIVA Aldemir Martins e Viva a equipe que possibilitou este sonho, Edna Prometeu (e cumpriu!), Haron Cohen, Jorge Mautner, Newton Freitas, Belchior e muitos outros. E o resultado mais importante deste encontro foi o primeiro passo para a concretização de uma Fundação Aldemir Martins com sede em Fortaleza, cujo principal objetivo é o estudo da iconografia imagética brasileira.

     

*Chefe da Representação do Ministério da Cultura em São Paulo