Mangueira, usina de energias, por Luís Turiba

publicado: 17/12/2018 17h41,
última modificação: 21/01/2019 11h06

‘Uma hidrelétrica de sambas, uma cachoeira de ritmos, uma tsunami de gentes e energias positivas.’
Luis Turiba*

    

Uma árvore de ‘infinitudes’. Que teu cenário é uma beleza, temos certeza. Ar que respiramos, fruta-manga que alimenta o calor do Rio. Vista assim do alto, mais parece uma explosão cósmica. Vivida por dentro, na pulsação da tua batida, nos pés dos teus sambistas, és um arrastão de complexidades, deusa de todas as motivações.

Lá vem ela, Mangueira – estação primeira do samba, uma das mais gloriosas instituições culturais do Brasil.

Foi assim que a sentimos no ensaio geral realizado com pompas e circunstâncias, no domingo (23 de janeiro de 2005), na Visconde de Niterói, rua base de todos os mil acessos a uma das mais populosas favelas do Rio de Janeiro.

Todo mundo desceu, todos participaram. Eram milhares de pessoas. E tudo se misturou com paz e harmonia na procissão do samba: as gentes do morro – os negros e as negramestiças de todas as idades e estilos vendendo seus quitutes e suas latinhas; os empresários patrocinadores, os turistas, os soldados de ambos os lados, as crianças penduradas nas curtas saias de suas mães.

Foi uma noite de glória e gala. Desfilar para as pessoas da própria comunidade foi como transformar a Mangueira em uma serpente que engole o próprio rabo e, antropofagicamente, devolve tudo em encantamentos. Vitória, vitória, vitória, gritava o presidente Alvinho, dando o tom da festa.

A Mangueira, até por força do seu enredo Energia do Samba, é mais uma vez uma poderosa usina de energias vivas para o Carnaval que se aproxima. Aliás, quem tem raiz dá mesmo os melhores frutos. Os mais saborosos, os mais consistentes. E a melhor energia ainda é a humana. Uma energia que vem da terra e tem cheiro, gosto, cor, sabor, prazer, estilo, ginga, suor, graça, beleza e garra.

Mangueira, a grande onda do verão 2005. Uma hidrelétrica de sambas, uma cachoeira de ritmos, uma tsunami de gentes e energias positivas. Garbosa, fagueira, delirantemente brasileira.

O surdo marca, a voz quase centenária do mestre Jamelão avisa que a emoção vai pegar. Uma lua cheia sai risonha, quase sem-vergonha, no topo da favela, iluminando becos, barracos e quebradas. Chininha está feliz. Por onde passa, fogos de artifício fazem a anunciação. O funk dá um tempo. Os pastores evangélicos (são dois templos na Visconde de Niterói) suspendem suas pregações e o movimento, pára seus negócios.

Lá vem a Mangueira com todos os ‘mios’ de suas gatas, todos os ‘cios’ de sua raça, todos os rios que passam na sua via. A criançada acompanha o desfile brincando de pula-pula pelas calçadas. À frente, Dom Delegado, o eterno mestre-sala com sua elegância rítmica retilínea mantém a harmonia.

Na ala das Baianas estão as pérolas. Nas crianças, o futuro. As cabrochas, as princesas e rainha da bateria lembram beija-flores bailando as asas, flutuando e roçando a centímetros do asfalto. Mestre-sala e porta-bandeira rodopiam como se estivessem conquistando o morro do Corcovado. Quem ousa ficar parado? Os ritmistas – cuícas chorando e roncando nas duas primeiras filas – seguem em marcha como soldados da infantaria. As paradinhas trazem à tona uma belíssima sinfonia dos tamborins com o tilintar energético dos chocalhos. A bateria treina uma bossa corporal que vai arrepiar a Marquês de Sapucaí. De repente, ela se abre como se fosse um Mar de Moisés, para em seguida, sem perder pique e ritmo, fazer um ousado movimento coreográfico que os rapazes aprenderam (vejam que sensacional!) com a banda dos Fuzileiros Navais, é a ordem unida do samba. Não sei se foi ilusão de ótica, mas parece que vi até postes se sacudindo. Não sei…talvez tenha sido um animado turista norueguês filmando tudo. Sei lá, não sei …

A Mangueira é essa serpente mágica e muito mais. Ela deixou a lua cheia, verde e rosa. É alimentada pelo suor de uma gente heróica e trabalhadora, a experiência da parceria de uma comunidade de favela tradicional e carente com grandes empresas, um espaço cultural carioquíssimo onde o Brasil recebe até o presidente dos Estados Unidos – afinal, na sua quadra de esportes, o presidente Bill Clinton se sentiu como ‘um pinto no lixo’, assim falou Mestre Jamelão.

A Mangueira, afinal, não é tão somente uma escola da samba – o que por si, já seria maravilhosamente fantástico. Ela faz parte da vida carioca, assim como a garota de Ipanema, a torcida do Flamengo, a Avenida Brasil, a TV Globo, o Aterro do Flamengo com o Pão de Açúcar de fundo e a música de Tom Jobim. É, além disso, ainda um cartão-postal com fundo musical e social da realidade brasileira. Enfim, para não ser exagerado: um planeta, uma galáxia cósmica de estrelas onde bate um surdo-coração.

    

*Luis Turiba é poeta, jornalista e chefe
da Assessoria de Comunicação Social do MinC