Culturas Populares

A arte de curar com ervas medicinais: conheça a mestra Neide das Ervas

Agraciada com o Prêmio Culturas Populares 2018, Neide utilizou o prêmio em benefício da própria comunidade. As inscrições para o prêmio deste ano seguem até 16/8

publicado: 02/08/2019 18h45,
última modificação: 02/08/2019 18h45
“Todos acabam voltando, pelo carinho com que são tratados, pelos resultados que têm com os tratamentos”, Neide das Ervas (Fotos: Divulgação Facebook)

Pesquisadora de ervas nativas do cerrado e de seus usos medicinais, Marineide Pereira Moreira da Silva, mais conhecida como Neide das Ervas, é uma mestra da Cultura Popular reconhecida pelo governo federal. Agraciada com o Prêmio Culturas Populares em 2018, Neide aproveitou a premiação para investir na própria atividade e em sua comunidade, gerando um fluxo positivo para o seu trabalho. Promovida pelo Ministério da Cidadania, a sétima edição do Prêmio Culturas Populares está com inscrições abertas até o próximo dia 16 de agosto.

A mestra Neide das Ervas é um exemplo do alcance que a premiação pode ter: os recursos recebidos a partir do reconhecimento do governo federal foram utilizados para construir um canteiro de ervas e para fazer oficinas com vizinhos e crianças da rede pública de ensino de Pirenópolis, município de Goiás.

“O prêmio fez com que eu pudesse juntar os meus vizinhos e outras pessoas da comunidade para fazer uma terapia em grupo. Eu também chamo as crianças das escolas para vir à Casa de Ervas, dou atenção para elas, faço uma aula prática e, no final, faço a doação de xaropes, de vermífugos. Com a outra parte do prêmio eu fiz canteiros de ervas”, conta Neide.

Natural do Piauí, a mestra trabalha há mais de 30 anos com a fitoterapia, a arte de curar com ervas medicinais. Ela aprendeu tudo o que sabe em casa. Filha de garrafeiros – como são chamados os profissionais que fazem as garrafadas, misturas de ervas para auxiliar nos processos de cura -, começou a investigar a propriedade das ervas ainda na infância. O marido de Neide, seu Ilton, também descende de uma família de garrafeiros da Paraíba. A partir da história em comum, fundaram juntos a Casa de Ervas, em Pirenópolis, há 22 anos.

“É um trabalho de amor”, relata Neide, que atua da coleta ao preparo das ervas. “A melhor época para se coletar é a lua minguante, pois não deixa as ervas estragarem, darem caruncho”, ensina. Após a coleta, ela costuma esperar um mês para a secagem das folhas, cascas, raízes e flores, que deve ser feita na sombra. Só então, elas podem ser utilizadas para fazer os preparos.

Atendimento personalizado

Em vez das tradicionais garrafadas, na Casa das Ervas são produzidas infusões em água ou em xarope – nesse caso, apenas para os que não são diabéticos. “Nós não utilizamos métodos de farmácia, como tinturas, só as técnicas tradicionais de infusão em água ou em caramelo”, conta Neide. As infusões e xaropes podem ser tomados associados a tratamentos da medicina acadêmica. “As pessoas tomam os nossos preparados junto com os medicamentos de farmácia e não tem contraindicação. Algumas delas que tomam remédio controlado vão melhorando, os médicos acabam tirando a medicação e nós seguimos com nosso tratamento”, destaca.

Diferentemente do que ocorre em outros locais que trabalham com compostos fitoterápicos, na Casa de Ervas não há receitas prontas. Cada pessoa é atendida individualmente e tem seu histórico pesquisado – entre as questões levantadas, estão os levantamentos de doenças ou enfermidades crônicas na família.

“Há pessoas para quem eu não posso receitar certas ervas, já que são hipertensas”, alerta ela. Todos os dias, ela e o marido atendem a diversas pessoas da região e até de outras localidades, independentemente da hora. “Todos acabam voltando, pelo carinho com que são tratados, pelos resultados que têm com os tratamentos”, afirma a mestra.

Preservação e legado

Outro diferencial do trabalho da casa é a pesquisa e catalogação desenvolvidas. Além de manter o histórico de cada paciente, com as receitas indicadas, resultados e efeitos colaterais, também é feita a catalogação de todas as ervas utilizadas, seu usos e contraindicações.

A Casa de Ervas ainda promove seminários, oficinas e debates sobre fitoterapia e Neide também encontra tempo para ensinar o que sabe para algumas pessoas da região. “Há uma moça que se formou em farmácia, mas não quer trabalhar na indústria e, semanalmente, tem aulas comigo para aprender sobre as ervas do cerrado”, diz ela. São outras formas de garantir que seu conhecimento e que a riqueza desta cultura não sejam perdidas.

Grande parte das práticas da medicina popular de ervas veio dos saberes ancestrais das comunidades indígenas brasileiras, que se mesclaram às dos escravos africanos e, até mesmo, às dos padres jesuítas, entre outros.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a Cultura Popular é o conjunto de criações que emanam de uma comunidade cultural, fundadas na tradição, expressas por um grupo ou por indivíduos e que reconhecidamente respondem às expectativas da comunidade enquanto expressão de sua identidade cultural e social e, engloba, portanto, todas as manifestações ligadas a essas tradições, como é o caso do uso medicinal das ervas.

Prêmio Culturas Populares

Lançado em 2007, o Prêmio Culturas Populares já teve seis edições, com cerca de 11 mil inscrições e 2.045 mestres, grupos e entidades sem fins lucrativos premiados com um total de R$ 28,75 milhões. A premiação ficou suspensa entre 2013 e 2016, tendo sido retomada em 2017. No ano passado, foram agraciadas 129 iniciativas da Região Nordeste, 123 da Sudeste, 99 da Sul, 98 da Norte e 51 da Centro-Oeste. O objetivo do Prêmio é estimular a preservação e a valorização dos saberes e das tradições culturais brasileiras.

No total, serão 250 premiados este ano: 150 prêmios serão destinados a iniciativas de mestres e mestras da cultura popular, 90 a pessoas jurídicas sem fins lucrativos com finalidade ou natureza cultural, já reconhecidas como Pontos de Cultura ou cadastradas na Plataforma Rede Cultura Viva, e 10 para pessoas jurídicas com ações comprovadas em acessibilidade cultural, também reconhecidas como Pontos de Cultura ou cadastradas na Plataforma Rede Cultura Viva. Os premiados nas edições de 2017 e 2018 não poderão concorrer ao prêmio neste ano. Os interessados podem apresentar uma única inscrição em apenas uma categoria.

Serviço:

Prêmio Culturas Populares
Inscrições até o dia 16 de agosto
Edital e anexos: http://culturaspopulares.cultura.gov.br/arquivos/
Mais informações: www.culturaspopulares.cultura.gov.br

Assessoria de Comunicação
Secretaria Especial da Cultura
Ministério da Cidadania