Infraestrutura cultural

Base forte para a promoção de atividades culturais, socioassistenciais e esportivas

Confira entrevista com o secretário de Infraestrutura Cultural do Ministério da Cidadania, Paulo Nakamura

publicado: 22/07/2019 18h38,
última modificação: 25/07/2019 17h50

Dos ares para a terra. Ex-piloto da Força Aérea Brasileira, o secretário de Infraestrutura Cultural do Ministério da Cidadania, Paulo Nakamura, fala um pouco sobre os desafios frente à secretaria que assumiu no primeiro semestre deste ano e lança mão de analogias para definir a própria atuação. Para ele, a Cultura, entendida como um grande sistema complexo, que envolve ciclos de criação, produção, distribuição, circulação, difusão, consumo e fruição de bens e serviços provenientes dos setores criativos, pode ser vista como uma grande árvore capaz de gerar frutos e que exige um terreno fértil para florescer e frutificar. E é aí que entra o seu trabalho: na preparação desse terreno, que irá permitir que esta árvore torne-se vistosa, capaz de gerar bons frutos. É com brilho nos olhos que Nakamura descreve o seu trabalho cotidiano, muito dele focado em oferecer, a comunidades vulneráveis, estruturas que abrigam atividades não apenas culturais, mas também socioassistenciais, esportivas, de inclusão digital e de prevenção à violência. O secretário descreve o principal programa sob sua gestão, o Estação Cidadania, além de apresentar outras funções de sua secretaria. Confira a entrevista.

Portal da Cultura: Quais são os principais projetos da Secretaria de Infraestrutura Cultural?

Paulo Nakamura: Com o Ministério da Cidadania, por meio da Secretaria Especial da Cultura, eu posso dizer que nós ganhamos uma ênfase ainda maior na área social, que faz parte dos objetivos dessa secretaria. Com isto, nós aprimoramos um programa que, na sua concepção, já propunha essa integração, ou seja, a construção ou adaptação de espaços que agreguem, em um mesmo local, esporte, uma quadra poliesportiva; a área cultural, com cine teatro e salas multiuso que abrigam expressões de arte, de dança, de música; e a assistência social, com os CRAS [Centro de Referência de Assistência Social] que já estavam integrados. Tem ainda o telecentro, que traz a tecnologia, o acesso à internet; e uma biblioteca, em um suporte à educação. Eu costumo falar que isso fecha um grande ciclo, são atividades que se complementam. E quando você tem essas atividades integradas, uma potencializa o efeito da outra. Para ampliar essa integração com o foco no social, o nosso programa ganhou um reforço em suas diretrizes e um nome que representa o que todos queremos levar à população: a chamada Estação Cidadania. Essa estação vem como uma expressão do que é o próprio Ministério da Cidadania, colaboração e integração. Nós provemos, facilitamos o acesso à cultura em diversas camadas da sociedade e agora, principalmente, temos o enfoque em levar estrutura às comunidades vulneráveis.

Portal da Cultura: Como essas Estações Cidadania funcionam na prática?

Paulo Nakamura: Elas foram concebidas para levar um pacote completo lá na ponta. Não é porque você está lidando com a pobreza, com a dificuldade, que você tem que chegar e colocar equipamentos de baixa qualidade, pelo contrário. Você tem que levar uma coisa de qualidade para que essas pessoas sintam que elas de fato merecem equipamentos de qualidade. É isso que a gente defende. Quando a gente entrega um espaço, e isso é muito importante, estamos entregando não para o município, mas  para a comunidade. E a comunidade tem que fazer com que essas atividades ocorram, isso cria um sentimento de pertencimento e, como consequência, a preservação do espaço pelos próprios usuários. Então, esse é um grande programa, um grande projeto, que ganha força com o apoio do Ministério da Cidadania.

Portal da Cultura: Seria um espaço democrático em que o jovem pode até encontrar um suporte do Estado, certo? Quem mais pode utilizar?

Paulo Nakamura: Sim, pela nossa experiência, a gente vê isso acontecendo na prática. Por exemplo, nas comunidades ditas vulneráveis, se não houvesse essa estação, você teria simplesmente pessoas morando nessas regiões. Sem opções de cultura, de atividades físicas e de esporte, principalmente para as crianças. Sem opções, o que acontece? Essa opção virá de outro lado, nem sempre positivo, muito menos saudável. Então quando o Estado entra com uma política de prover esse tipo de equipamento, que é praticamente completo, oferece- se às crianças uma opção, uma porta de entrada para o exercício de sua cidadania. Por exemplo, a criança está jogando bola e depois volta para casa. Mas ela sabe que na Estação Cidadania tem uma oficina de artesanato, uma aula de dança, de artes marciais e já traz a família que estava ociosa em casa. E como ali você já tem a área do CRAS, todo um aspecto da cidadania é restaurado e fortalecido.

Portal da Cultura: Além desse equipamento, a Seinfra também oferece outras formas de apoio a comunidades de todo o País?

Paulo Nakamura: Claro. Por exemplo, municípios que precisam de uma construção ou de um restauro de um museu, um teatro, de um centro cultural. Nós recebemos aqui aportes de recursos via emendas parlamentares. Esta secretaria é responsável por processar todas essas emendas, esses recursos, por fazer com que uma série de benefícios cheguem lá na ponta, no município.

Portal da Cultura: O senhor chegou no Ministério da Cidadania por meio da Cultura. Como o senhor acredita que colabora pessoalmente para o trabalho junto à área de infraestrutura cultural?

Paulo Nakamura: Eu posso falar um pouco da minha formação. Ela foi muito mais na área de gestão de programas complexos, tecnológicos e de inovação. Quando eu fui convidado para atuar na Cultura, questionei-me: “de que forma eu poderia contribuir?”. E a primeira questão foi entender o que é a Cultura. Porque até então eu era apenas um consumidor de Cultura, colhendo os frutos de uma grande árvore ao ir a uma peça de teatro, assistir a um filme, ler um livro etc. Daí a analogia de comparar a Cultura com uma grande árvore. Ao entender todos os processos envolvidos nos ciclos de criação, produção, distribuição, circulação, difusão, consumo e fruição de bens e serviços provenientes dos setores criativos, um show, um filme, ou qualquer outra expressão cultural são apenas uma parte pequena desse sistema. Então, você tem a atuação dos galhos. Cada galho faz parte de uma única cadeia, da elaboração e concepção à produção e distribuição. E se continuarmos a analogia, podemos pensar: mas essa árvore precisa de uma base, do terreno para que ela possa florescer. E aí é onde eu talvez me encaixe. O que é infraestrutura cultural? As bases ou o terreno para que essa árvore da Cultura cresça. Porque o ator, o produtor, seja quem for, precisa de um local: seja um estúdio, seja um teatro, uma escola de dança. Então é necessário ter alguém que consiga olhar e entender essa grande árvore que é a Cultura. Mais do que isso, entender de que maneira a gente pode fomentar e fazer com que esse terreno seja mais fértil para que essa Cultura aconteça. Isso é só uma visão.

Portal da Cultura: Conte um pouco sobre o seu histórico profissional.

Paulo Nakamura: Eu sou de Curitiba, coronel da reserva da FAB, fiz academia da Força Aérea e formei-me em 1989. Comecei como piloto, fazendo patrulha marítima da costa brasileira. Tenho aproximadamente duas mil horas de voo por este grande país. Mas aí chegou um determinado ponto em que eu precisava de mais e fiz uma opção, depois de um curso que fiz na Inglaterra relacionado à área eletrônica. Quis voltar a estudar e fui fazer o ITA [Instituto Tecnológico de Aeronáutica]. Formei em Engenharia Eletrônica e tornei-me, assim, piloto e engenheiro: uma espécie de interface, ao entender ambos os lados, entre a área operacional e a técnica. Por causa dessa formação, eu trabalhei no escritório de projetos da Força Aérea, que cuida dos principais projetos estratégicos. Tenho mestrado na área de Ciências Aeronáuticas, na área de Gestão do Conhecimento. Possuo também uma especialização, o nome é estranho, mas é na área de Modelagem Dinâmica de Sistemas Complexos (risos). Basicamente, são ferramentas de auxílio à decisão, para melhorar a qualidade das decisões das matérias de cunho estratégico. Em 2016, eu recebi o convite para entrar na área da Cultura, para ajudar a criar a Secretaria de Infraestrutura Cultural do então Ministério da Cultura e, desde então, eu tenho aprendido muito com projetos essencialmente culturais e sociais. Aprendi que com muito menos dá para fazer mais, e o efeito disso, de tirar uma criança da rua, das mãos do tráfico, da exploração, de dar uma perspectiva nova ao idoso, de apoiar atividades culturais, não tem preço. Isso tem me completado.

Fotos: Clara Angeleas/Ministério da Cidadania

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