Cidadania

Biblioteca gera transformação social em município da Ilha de Marajó

Coordenadora da Biblioteca Municipal Jorge Gomes de Carvalho, em Curralinho (PA), promove cursos de capacitação e atendimento a jovens com depressão

publicado: 10/06/2019 18h48,
última modificação: 12/06/2019 10h58

Fazer da biblioteca um local que gere cidadania, oportunidades de transformação e, claro, literatura e conhecimento. Essa é a ideia de Mycnamara Ribeiro, coordenadora da Biblioteca Municipal Jorge Gomes de Carvalho, no Pará. A tarefa não é fácil, pois o espaço está localizado em Curralinho, município do interior da Ilha de Marajó que tem um dos 50 menores índices de desenvolvimento humano (IDH) do Brasil (a cidade ocupa a posição 5.524 entre 5.565). Para cumprir sua missão, a biblioteca oferece cursos de capacitação em produção de biojoias e sabão ecológico e oferece acompanhamento psicológico a jovens em depressão.

Em 2018, a Biblioteca integrou o programa Conecta Biblioteca, da ONG Recode, que busca a transformação social por meio das bibliotecas públicas municipais. Uma das ações requisitadas pelo programa é a realização de pesquisa junto a jovens da comunidade para entender suas necessidades e anseios. “Ao realizar a pesquisa, a população entre 14 e 29 anos manifestou o desejo de fazer cursos profissionalizantes ou de capacitação, que pudessem oferecer a eles uma perspectiva de emprego e renda”, conta Mycnamara.

A coordenadora buscou ajuda para suprir os anseios dos jovens da comunidade. O apoio veio das secretarias Municipais de Meio Ambiente, que disponibilizou os técnicos, e de Assistência Social, de onde vieram os recursos. A partir da parceria, foram formatados dois cursos para melhor atender a população local: fabricação de sabão ecológico, feito com as sobras de óleo de fritura, muito utilizado na região; e de biojoias, aproveitando a tradição do manejo do açaí e de outras sementes nativas.

Atividades complementares

Além dos jovens da comunidade, os cursos também foram destinados às mulheres cadastradas no Centro de Convivência e Fortalecimento do Vínculo (SCFV), um serviço da Proteção Social Básica do Sistema Único da Assistência Social (SUAS), da Secretaria Especial do Desenvolvimento Social do Ministério da Cidadania. As ações do SCFV são oferecidas como atividades complementares, realizadas em grupo, sejam artísticas, culturais, de lazer ou esportivas.

As oficinas tiveram duas semanas de duração e entre 30 e 50 alunos matriculados por turma. Na de biojoias, cerca de 300 peças foram produzidas e vendidas na Festa do Açaí, a mais tradicional da cidade. Professora da rede pública municipal, Mary Terezinha de Oliveira participou das oficinas e atesta a diferença que fizeram em sua vida e na da comunidade. “As oficinas foram muito boas. Deveria ter mais iniciativas desse tipo, pois podem ajudar muito, dar perspectiva aos jovens da nossa comunidade, que é muito carente”, destaca ela.

A professora Mary ressalta que as oficinas a ajudaram a resgatar a autoestima. “Na época em que foram feitas as oficinas, eu estava afastada do trabalho, pois estava com depressão. As atividades me trouxeram uma oportunidade de socializar, de aprender e, também, uma fonte alternativa de renda, então foi muito bom para minha saúde”, afirma.

Continuidade

Neste mês de junho, a biblioteca programou um encontro com os participantes da oficina, para monitorar como está a produção e organizar estratégias de venda. Estima-se que cerca da metade dos participantes da oficina tenham seguido com a produção. Para a coordenadora do projeto, descobrir formas de manter as pessoas engajadas ainda é um desafio. Já Mary Terezinha é taxativa: “não adianta aprender e deixar o certificado dentro da gaveta. Tem que colocar em prática, movimentar o conhecimento adquirido para que ele gere frutos”, conclui.

Refúgio e voluntariado

Outra atividade que está sendo desenvolvida na biblioteca, ainda em fase embrionária, é o atendimento a jovens em situação de vulnerabilidade, com depressão. De acordo com Mycnamara, tudo começou quando um adolescente da comunidade começou a manifestar tendência ao suicídio em suas redes sociais. Tocada pela situação, a coordenadora buscou a ajuda de uma amiga psicóloga, Rosélia da Rosa, que se dispôs a conversar com o jovem. Atualmente, ele já presta serviços voluntários de organização do acervo, atendimento ao público e segue com o aconselhamento.

“A leitura abriu novos horizontes para esse jovem, que também se viu valorizado e empoderado ao ter suas opiniões ouvidas. Com o trabalho voluntário, ele se ocupa com outras atividades, ocupa a mente de maneira diferente”, diz ela. Outros três jovens já estão sendo atendidos da mesma forma e a ideia é fazer com que essa seja mais uma atividade da biblioteca.

Premiação

E tanto trabalho não é em vão. Além dos resultados práticos, vistos no dia a dia das pessoas que frequentam a biblioteca, Mycnamara tem uma razão a mais para se orgulhar do empenho em fazer a diferença para a comunidade. O projeto por meio do qual desenvolveu as oficinas de sabão ecológico e biojoias foi premiado, no ano passado, pela ONG Recode como uma das 10 melhores práticas de bibliotecas em todo o país. A coordenadora é só gratidão. “Nós temos um retorno bom dos frequentadores da biblioteca. Vemos que começa a aumentar o número de jovens que a frequentam em busca de um refúgio. E nós temos tornado esse pequeno espaço, com quatro mesas e alguns livros, em um refúgio para eles”, conclui.

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