Prêmio Culturas Populares

“O jongo me deu tudo”, afirma Noinha do Jongo, mestra da cultura popular

Geneci Maria da Penha foi um das contempladas, em 2018, com o Prêmio Culturas Populares. Inscrições para a edição 2019 da premiação estão abertas

publicado: 25/06/2019 17h30,
última modificação: 26/06/2019 13h37
Geneci Maria da Penha, a Noinha do Jongo, é mestra do grupo Congola, de Campos dos Goytacazes (RJ). Fotos: Marcelo Tasso / Diadorim Ideias

“O jongo é tudo, o jongo me deu tudo”. É assim que Geneci Maria da Penha se refere ao jongo, expressão cultural que reúne dança, música e ginga, muita ginga. Geneci, conhecida como Noinha do Jongo, foi uma das mestras agraciadas com o Prêmio Culturas Populares 2018, edição Selma do Coco.

Nascida em 1944, em Campo dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro, Noinha é descendente de uma família de jongueiros. Aprendeu tudo o que sabe com sua mãe, Maria Antônia da Penha, que também foi mestra desta arte popular cujas raízes remontam à ancestralidade africana, principalmente aos povos do idioma bantu.

O jongo chegou no Brasil por meio dos negros escravizados, que o praticavam como uma forma de manter vivas suas origens, suas tradições. Era durante as rodas de jongo que alguns deles treinavam a capoeira, disfarçando os golpes entre as gingas. “Os capatazes acreditavam que eles estavam se divertindo e eles conseguiam treinar para se defender”, conta Noinha.

Deste modo, o jongo consolidou-se como uma expressão lúdica da população escravizada das fazendas de café e cana-de-açúcar em toda região Sudeste. Após a abolição da escravidão, a prática já estava integrada à vida das comunidades afrodescendentes e foi passada de geração a geração. Em geral, eram os descendentes dos mestres jongueiros que davam continuidade à essa expressão da cultura popular. Foi o que ocorreu com Noinha, que assumiu o lugar da mãe quando esta faleceu, na década de 80.

Em 2005, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), vinculado ao Ministério da Cidadania, reconheceu o Jongo do Sudeste como como Bem Cultural Imaterial, inscrevendo-o no Livro de Registro das Formas de Expressão. O jongo também é patrimônio imaterial de Campos dos Goytacazes.  

Ao som dos tambores

O jongo é diversão, alegria

Noinha do Jongo

Atualmente, Geneci Maria da Penha ela é mestra do grupo Congola. Com cerca de 20 integrantes, entre parentes e amigos, os ensaios são organizados no jardim de sua casa. Além das rodas feitas nos encontros informais, o grupo também se apresenta em festividades temáticas de Campos.

Assim como o Congola, há diversos grupos de jongo no Brasil, espalhados pela região Sudeste, em especial pelos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo. Com o apelo da tradição popular, cada mestre e grupo acaba se desenvolvendo de acordo com suas próprias características. “É tudo diferente, não tem grupo igual ao outro”, atesta Noinha.

Mas se existem diferenças, também há características comuns. Dentre os principais elementos dessa tradição estão os tambores, feitos de madeira e peles de animais, e a dança em roda, no meio da qual os dançarinos fazem seus solos. Outro componente marcante desta arte são os pontos, como são chamadas as formas poéticas por meio das quais os mestres e grupos se expressam. No Congola, é Noinha que compõe os versos que embalam as reuniões do grupo. “O jongo é diversão, alegria”, destaca a mestra.

Tradição à prova

Noinha conta que se mantém firme e confiante no futuro de sua arte. Para isso, aposta na força da tradição. “Eu tenho passado para alguns familiares, mas a pessoa é livre para escolher. Nem todos da minha família aderiram a essa prática, mas a gente trabalha para isso, para manter a nossa tradição”, diz.

Segundo a mestra, ela também costuma repassar aos familiares a relevância cultural da prática secular. “O Jongo não tem ligação direta com a religião, com a religiosidade, mas eles tentam até demonizar nossa tradição. Mas nós estamos aqui, vamos resistir. Desde a época da escravidão que o jongo é resistência. Nossos cantos são cantos de resistência para dar continuidade à nossa cultura”, conclui.

Nossos cantos são cantos de resistência para dar continuidade à nossa cultura

Noinha do Jongo

Foi como um ato de resistência e uma forma de registrar parte de seu legado que, em 2010, ela escreveu e publicou o livro “A Voz do Tambor, Noinha e o Jongo”. “A nossa cultura é muito pela oralidade, né? Não são os protagonistas que escrevem, são pessoas que escrevem sobre nós. Então eu resolvi fazer uma coletânea de algumas histórias que eu presenciava e fui escrevendo. Não é um livro com palavras acadêmicas, é um livro de cultura popular”, comenta.

É com essa garra, com o poder da tradição de seus ancestrais, que Noinha e outros mestres jongueiros buscam preservar sua cultura. O trabalho cotidiano, para ela, vale a pena. “O Jongo me deu alegria, possibilidades de levar as pessoas a conhecer e gostar da nossa cultura, de fazer com que as pessoas entendam as coisas como eu entendo. É conscientização, possibilidade de fazer novas amizades, de tudo”, declara, risonha, a mestra jongueira e guerreira.

Prêmio Culturas Populares 2019

Estão abertas até 16 de agosto as inscrições para a 7ª edição do Prêmio Culturas Populares, que vai dar R$ 20 mil a 250 mestres, mestras e Pontos de Cultura que estimulem e valorizem as mais diversas expressões da nossa cultura, como o jongo, o cordel, o frevo, a quadrilha, o maracatu, a capoeira, as culinárias regionais e o bumba meu boi, entre muitos outros. Neste ano, o homenageado é o cantor e ator Vitor Mateus Teixeira, o Teixeirinha, um dos principais nomes da música tradicional do Rio Grande do Sul.

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