Patrimônio

Paraty e Ilha Grande (RJ) podem se tornar o próximo Patrimônio Mundial brasileiro

Se aprovado pelo Comitê da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o local será considerado o primeiro sítio misto do Brasil

publicado: 27/06/2019 11h42,
última modificação: 28/06/2019 18h33
Se aprovado pelo Comitê da Unesco, o local será considerado o primeiro sítio misto do Brasil (Foto: Oscar Liberal)

Uma região de vasta riqueza cultural, que encanta por sua beleza natural. Paraty e Ilha Grande, no Rio de Janeiro, estão prestes a ter reconhecido seu excepcional valor para a humanidade. O Comitê da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) irá se reunir de 30 de junho a 10 de julho, em Baku, no Azerbaijão, para decidir se o sítio será inscrito na lista do Patrimônio Mundial.

Serão analisados 28 pedidos de reconhecimento de sítios mundiais, sendo dois sítios mistos, ou seja, locais que são reconhecidos ao mesmo tempo como Patrimônio Cultural e Natural Mundial. Além de Paraty e Ilha Grande, que podem se tornar o primeiro sítio misto brasileiro, o outro candidato é a região do Lago de Ocrida, na Albânia-Macedônia. De 1.092 bens inscritos da Lista do Patrimônio Mundial, apenas 38 são mistos.

“A região já atrai muitos visitantes, por sua natureza exuberante e efervescência cultural. Agora estaremos sob os holofotes do turismo mundial. O Brasil terá 22 bens brasileiros reconhecidos como Patrimônio Mundial. É um país continental, com uma grandiosa diversidade cultural, o que demonstra a importância e a potência desse território para compreensão da trajetória humana no planeta Terra”, celebra Kátia Bogéa, presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), instituição vinculada ao Ministério da Cidadania.

Se aprovado, Paraty e Ilha Grande serão o 22º bem brasileiro a levar o título da Unesco. Atualmente, há 14 sítios inscritos como Patrimônio Mundial Cultural e sete bens do Patrimônio Mundial Natural no Brasil.

O sítio misto abrange um território de quase 149 mil hectares, em que o centro histórico se cerca de quatro áreas de conservação ambiental. Ali estão o Parque Nacional da Serra da Bocaina, o Parque Estadual da Ilha Grande, a Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul e a Área de Proteção Ambiental de Cairuçu. Desde a Baía da Ilha Grande, são 187 ilhas, muitas cobertas de vegetação primária. Nesse extenso território, encontra-se um sistema cultural baseado nas comunidades tradicionais, no qual se vê estreita relação entre cultura e biodiversidade.

A delegação brasileira que irá a Baku é composta pelo secretário especial da Cultura do Ministério da Cidadania, Henrique Pires, pela presidente do Iphan, Kátia Bogéa, pelo diretor de Cooperação e Fomento do Iphan, Marcelo Brito, e pela assessora internacional do Ministério da Cidadania, Juliana Santini de Oliveira, entre outros.

Centro histórico de Paraty (Foto: Oscar Liberal)

Candidatura em parceria

A candidatura de Paraty e Ilha Grande é fruto de parceria entre os ministérios da Cidadania e do Meio Ambiente, Iphan, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Prefeituras Municipais de Paraty e de Angra dos Reis e Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Junto ao Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), ao Instituto Histórico e Artístico de Paraty (IHAP), ao Fórum das Comunidades Tradicionais e ao Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina, os órgãos responsáveis estão construindo, em conjunto, um plano de gestão compartilhada do sítio, envolvendo diversas representações locais.

O Brasil é membro do Comitê do Patrimônio Mundial e tem direito a voto. Participam também Angola, Austrália, Azerbaijão, Bahrein, Bósnia e Herzegovina, Burkina Faso, China, Cuba, Guatemala, Hungria, Indonésia, Kuwait, Quirguistão, Noruega, Saint Kitts e Nevis, Espanha, Tunísia, Uganda, Tanzânia e Zimbábue.

Cultura e Biodiversidade

Paraty: Cultura e Biodiversidade é o título do dossiê de candidatura entregue à Unesco. Documenta, na região, a coexistência da cultura viva e ancestral em um ambiente natural exuberante.

É a Mata Atlântica preservada que rodeia as águas calmas da baía da Ilha Grande. É a cultura indígena, quilombola e caiçara que vive em harmonia com essa rica biodiversidade. É o registro arqueológico da ocupação humana nesse território ao longo do tempo. É a cidade colonial que preserva suas relações históricas e a dinâmica urbana no centro de Paraty, no estado do Rio de Janeiro.

Um dos principais aspectos do sítio, que faz do local incomparável no mundo, é o alto grau de espécies endêmicas da fauna e da flora, assim como espécies raras do bioma Mata Atlântica. São 36 espécies vegetais consideradas raras, sendo 29 endêmicas. A área abrange cerca de 45% das aves da Mata Atlântica e 34% dos anuros (sapos e pererecas) desse bioma. Há registros de mamíferos raros e predadores, como a onça-pintada e o muriqui, o maior primata das Américas.

O núcleo histórico colonial de Paraty, seu traçado urbano preservado e o Morro da Vila Velha estão situados na orla da planície costeira, envolvido por um relevo de grandes altitudes, que emoldura a paisagem urbana. Cerca de 85% da cobertura vegetal nativa permanece bem conservada e a área do sítio misto forma o segundo maior remanescente florestal do bioma Mata Atlântica. O território compreende a relação ancestral do homem com a natureza, cujos primeiros registros datam de 4 mil anos.

Existe ali um sistema cultural com uma diversidade de sítios arqueológicos e históricos, como sambaquis, antigas fazendas, fortificações e o Caminho do Ouro. A manifestações culturais e o núcleo urbano de Paraty, onde residem comunidades tradicionais com seus modos de vida, são a marca da cultura viva desse sítio misto. A conservação do ambiente natural e de sua biodiversidade excepcional contribuiu para a manutenção das comunidades tradicionais em seus territórios.

Esse é o primeiro sítio misto da América do Sul e Caribe a incluir as populações tradicionais de diferentes etnias vivendo no interior de uma das maiores porções de Mata Atlântica preservada, de rica biodiversidade, além da cidade histórica. O sítio misto Paraty cultura e biodiversidade abriga duas terras indígenas, dois territórios quilombolas e 28 comunidades caiçaras, que vivem da relação com a natureza, da pesca artesanal e do manejo sustentável de espécies da biodiversidade.

Conheça o sítio misto

Serra da Bocaina: ali se pode percorrer parte do Caminho do Ouro, observar a rica biodiversidade e apreciar a vista da baía da Ilha Grande a partir da Pedra da Macela.

Parque Estadual da Ilha Grande: encontra-se uma variedade de oficinas líticas, vestígios de indígenas pré-históricos, que usavam rochas para polir e afiar seus instrumentos de pedra.

Reserva Biológica da Praia do Sul: tem sua paisagem marcada pela tradicional canoa caiçara e praias bem preservadas.

Área de Proteção Ambiental de Cairuçu: tem como principais atrativos praias e ilhas, o Saco do Mamanguá, cultura caiçara quilombola e indígena, além do sítio histórico de Paraty-Mirim.

Centro Histórico de Paraty: palco de muitos festejos tradicionais, como a Festa do Divino Espírito Santo.

Morro da Vila Velha: onde fica o forte e Museu do Defensor Perpétuo.

Paraty e Ilha Grande em números

• Área total: 148.831 ha
• Área de entorno: 407.752 ha
• Centro histórico de Paraty (46 ha) e Morro da Vila Velha (13 ha)
• Altitude máxima: 2.088 metros no Pico do Tira Chapéu, na Serra da Bocaina
• 187 ilhas, muitas cobertas de vegetação primária, e rica diversidade marinha
• 4 unidades de conservação: Parque Nacional da Serra da Bocaina, Parque Estadual da Ilha Grande, Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul e Área de Proteção Ambiental de Cairuçu
• 6 municípios: Paraty (RJ), Angra dos Reis (RJ), Ubatuba (SP), Cunha (SP), São José do Barreiro (SP) e Areais (SP)
• Centro histórico de Paraty: tombamento pelo Iphan em 1958 (61 anos), fundação em 28 de fevereiro de 1667 (352 anos)

Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)
Ministério da Cidadania